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O Lobo de Wall Street: Jordan Belfort em São Paulo beira o culto religioso

27 Nov 2015 | por Fabiana às 09:11

O Lobo de Wall Street: Jordan Belfort em São Paulo beira o culto religioso

“Somos mais de dois mil corações em sintonia”. A frase poderia ser de um pastor religioso, mas era da simpática apresentadora de O Lobo de Wall Street, evento que, já pelo nome, deixava claro sua atração principal: Jordan Belfort, o infame ex-contraventor que, entre vários crimes no mercado financeiro americano, lesou milhares de famílias e teve a vida levada ao cinema por Martin Scorsese no (excelente) filme que leva o mesmo nome da atração do último domingo (26).
 

Belfort, desde que deixou a prisão em 2006 nos EUA (a qual faz a ressalva de que, “apesar de ser uma, era mais como um campo – era ruim, mas não estava sendo butt-fucked”), leva a vida colhendo os louros do sucesso do filme e do livro contando suas histórias, mas principalmente ensinando grupos de pessoas pelo mundo como empreender e chegar ao paraíso – ou seja, tornar-se um milionário. Comenta-se que ele ganha mais de US$ 30 mil por eventos desse porte, dos quais 50% são destinados a um fundo de investidores lesados por suas operações no passado.
 

Altas cifras são um imperativo do dia e seduzem um público formado por pessoas que pagaram de R$ 697 a quase R$3 mil para assistir, além de Belfort, a quatro outros palestrantes. Entre eles, estão Ricardo Bellino, que trouxe a agência Elite Models (que revelou Gisele Bundchen) e Eduardo Lyra, eleito pelo Fórum Econômico Mundial como um dos jovens que podem mudar o mundo.
 

Programado para começar às 9h00, filas imensas contornavam o edifício onde o evento aconteceria. Belfort, que deveria fazer uma entrada logo no inicio do dia, que começou com quase uma hora de atraso, não apareceu. O público havia acabado de se acomodar entre as três seções do imenso salão por volta das 10h. Independente dos valores de três e quatro digitos pagos no ingresso, ninguém teve direito a refeição alguma ou acesso a internet. Invertando a lógica do pastor, onde há lobos, há ovelhas.
 

Anões cumprem papel na recepção do evento (Foto: Gustavo Silva)ANÕES CUMPREM PAPEL NA RECEPÇÃO DO EVENTO (FOTO: GUSTAVO SILVA)

Aprender as técnicas e estratégias de Belfort e de outros empreendedores de sucesso, networking e idolatria pura e simples, além de curiosidade pelo personagem retratado por Leonardo DiCaprio, são alguns dos motivos apontados para quem se dispôs a trocar o domingo de sol por palestras profissionais. "Geralmente, as pessoas mais interessantes ficam em lugares privilegiados, reservados", justifica Henrique Matos, dono de uma agência digital que optou pelo ingresso platinum, o mais caro. Daniel Silva, que trabalha com coaching, acabou ficando no setor intermediário, o gold, mas o motivo para a escolha não foi financeiro - e tampouco exclusivo: "era o único disponível, queria o platinum mas já estava esgotado".

A história de Belfort evoca entre a plateia predominantemente masculina do evento um sentimento que igrejas de diversas religiões tentam despertar em seus fieis: o perdão, mesmo após suas ações terem lesado mais de 1.500 pessoas, em uma condenação que o obrigou a restituir US$ 110 milhões a investidores que confiaram em sua palavra. "Todo mundo comete seus erros, tem suas dificuldades e seus tropeços. Não importa o que aconteceu, mas o que você vai fazer daqui pra frente", reflete Nilzo Andrade, que veio de Curitiba e trabalha com planejamento de vida. Sua visão é ressaltada por muitos outros. "O que todos buscam aqui é ouvir o que ele fez de diferente para a empresa dele alcançar um sucesso tão rápido", analisa Maxwell Carlos, que é do ramo de móveis sobre medida e ficou no setor silver, o mais econômico. "O que ele fez ou deixou de fazer não afeta nada o que ele tem a dizer para gente". 


Ideias valem mais do que produtos, e, mais do que isso: você é a marca mais importante de seu próprio negócio. Esse é a grande lição de todas as paletras. O poder da autoconfiança e do marketing, seja pessoal ou empresarial, é divino. A própria história de Belfort é clara quanto a isso: o banco de investimentos fundado por ele, Stratton Oakmont, foi batizado dessa maneira por trazer um aspecto de “reputação britânica” à empresa. O Lobo de Wall Street, de acordo com antigos parceiros, nunca foi chamado de Lobo e tampouco a sede da empresa ficava em Wall Street. Entre versões maquiadas e mentiras deliberadas, prevalece a versão revisitada de Belfort, o empresário.
 

O clima eclesiástico de entrega e devoção dos participantes durante as apresentações fica entre o belo e o assustador. Centenas de pessoas interagem entusiasmadas aos pedidos dos palestrantes para que repitam frases ou para que digam algo ao companheiro do lado. Fé não é um termo mencionado, mas as palavras dos convidados são dedicadas a aumentar a autoestima de todos.


A estrela da noite, Jordan Belfort, entra no palco, diante de mais de duas mil pessoas, para palestra de 3 horas. Em dado momento, conta ao público uma história pessoal. O Lobo de Wall Street se vê em um avião no Canadá, cansado e com fome, alocado na primeira classe de um voo comercial. Depois de um dia de palestra, só espera se alimentar. Ele revela seu desejo a uma aeromoça, e lhe faz o pedido de comida. Recebe como resposta que “refeições não são servidas nesse setor”.
 

“What the fuck?”, exalta Belfort ao público brasileiro, para continuar com sua história. Ele acha estranho estar na primeira-classe e não ser servido. Acha ainda mais curioso o fato de que, pouco depois, a aeromoça passa pelo corredor com comida, mas encaminha-se à ala econômica. Ele volta-se à funcionária e a indaga pelo motivo não poder comprar os lanches servidos às outras pessoas. Escuta que “essas são as regras”.
 

Então, Belfort fecha sua parábola. Ele aborda outra atendente, que rapidamente acata seu pedido e traz, “por conta da casa”, um lanche ao Lobo de Wall Street. A primeira aeromoça, ele diz ao público, é um “pato”, também apresentada como uma “pessoa razão”; já a outra, é uma “águia”, a “pessoa resultado”, aquela que, de acordo com a linguagem simples e direta do palestrante, “get shit done” - traduzido facilmente por "faça acontecer, a qualquer custo".

A história de Belfort traz uma moral variável, de interpretações que diferem de pessoa para pessoa. Para o público de 2 mil pessoas, O Lobo de Wall Street parece estar em um panteão de gênios dos negócios. Ser um 'águia' é o que importa. Mas há ironia no ar, junto ao sentimento de júbilo do fim da noite: em inglês, águia (eagle) e ego soam extremamente semelhantes. A dificuldade não está só em distinguir os sons, mas em reconhecer o limite de cada um. O céu, talvez?


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27 Nov 2015 | por Fabiana às 09:11

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“Somos mais de dois mil corações em sintonia”. A frase poderia ser de um pastor religioso, mas era da simpática apresentadora de O Lobo de Wall Street, evento que, já pelo nome, deixava claro sua atração principal: Jordan Belfort, o infame ex-contraventor que, entre vários crimes no mercado financeiro americano, lesou milhares de famílias e teve a vida levada ao cinema por Martin Scorsese no (excelente) filme que leva o mesmo nome da atração do último domingo (26).
 

Belfort, desde que deixou a prisão em 2006 nos EUA (a qual faz a ressalva de que, “apesar de ser uma, era mais como um campo – era ruim, mas não estava sendo butt-fucked”), leva a vida colhendo os louros do sucesso do filme e do livro contando suas histórias, mas principalmente ensinando grupos de pessoas pelo mundo como empreender e chegar ao paraíso – ou seja, tornar-se um milionário. Comenta-se que ele ganha mais de US$ 30 mil por eventos desse porte, dos quais 50% são destinados a um fundo de investidores lesados por suas operações no passado.
 

Altas cifras são um imperativo do dia e seduzem um público formado por pessoas que pagaram de R$ 697 a quase R$3 mil para assistir, além de Belfort, a quatro outros palestrantes. Entre eles, estão Ricardo Bellino, que trouxe a agência Elite Models (que revelou Gisele Bundchen) e Eduardo Lyra, eleito pelo Fórum Econômico Mundial como um dos jovens que podem mudar o mundo.
 

Programado para começar às 9h00, filas imensas contornavam o edifício onde o evento aconteceria. Belfort, que deveria fazer uma entrada logo no inicio do dia, que começou com quase uma hora de atraso, não apareceu. O público havia acabado de se acomodar entre as três seções do imenso salão por volta das 10h. Independente dos valores de três e quatro digitos pagos no ingresso, ninguém teve direito a refeição alguma ou acesso a internet. Invertando a lógica do pastor, onde há lobos, há ovelhas.
 

Anões cumprem papel na recepção do evento (Foto: Gustavo Silva)ANÕES CUMPREM PAPEL NA RECEPÇÃO DO EVENTO (FOTO: GUSTAVO SILVA)

Aprender as técnicas e estratégias de Belfort e de outros empreendedores de sucesso, networking e idolatria pura e simples, além de curiosidade pelo personagem retratado por Leonardo DiCaprio, são alguns dos motivos apontados para quem se dispôs a trocar o domingo de sol por palestras profissionais. "Geralmente, as pessoas mais interessantes ficam em lugares privilegiados, reservados", justifica Henrique Matos, dono de uma agência digital que optou pelo ingresso platinum, o mais caro. Daniel Silva, que trabalha com coaching, acabou ficando no setor intermediário, o gold, mas o motivo para a escolha não foi financeiro - e tampouco exclusivo: "era o único disponível, queria o platinum mas já estava esgotado".

A história de Belfort evoca entre a plateia predominantemente masculina do evento um sentimento que igrejas de diversas religiões tentam despertar em seus fieis: o perdão, mesmo após suas ações terem lesado mais de 1.500 pessoas, em uma condenação que o obrigou a restituir US$ 110 milhões a investidores que confiaram em sua palavra. "Todo mundo comete seus erros, tem suas dificuldades e seus tropeços. Não importa o que aconteceu, mas o que você vai fazer daqui pra frente", reflete Nilzo Andrade, que veio de Curitiba e trabalha com planejamento de vida. Sua visão é ressaltada por muitos outros. "O que todos buscam aqui é ouvir o que ele fez de diferente para a empresa dele alcançar um sucesso tão rápido", analisa Maxwell Carlos, que é do ramo de móveis sobre medida e ficou no setor silver, o mais econômico. "O que ele fez ou deixou de fazer não afeta nada o que ele tem a dizer para gente". 


Ideias valem mais do que produtos, e, mais do que isso: você é a marca mais importante de seu próprio negócio. Esse é a grande lição de todas as paletras. O poder da autoconfiança e do marketing, seja pessoal ou empresarial, é divino. A própria história de Belfort é clara quanto a isso: o banco de investimentos fundado por ele, Stratton Oakmont, foi batizado dessa maneira por trazer um aspecto de “reputação britânica” à empresa. O Lobo de Wall Street, de acordo com antigos parceiros, nunca foi chamado de Lobo e tampouco a sede da empresa ficava em Wall Street. Entre versões maquiadas e mentiras deliberadas, prevalece a versão revisitada de Belfort, o empresário.
 

O clima eclesiástico de entrega e devoção dos participantes durante as apresentações fica entre o belo e o assustador. Centenas de pessoas interagem entusiasmadas aos pedidos dos palestrantes para que repitam frases ou para que digam algo ao companheiro do lado. Fé não é um termo mencionado, mas as palavras dos convidados são dedicadas a aumentar a autoestima de todos.


A estrela da noite, Jordan Belfort, entra no palco, diante de mais de duas mil pessoas, para palestra de 3 horas. Em dado momento, conta ao público uma história pessoal. O Lobo de Wall Street se vê em um avião no Canadá, cansado e com fome, alocado na primeira classe de um voo comercial. Depois de um dia de palestra, só espera se alimentar. Ele revela seu desejo a uma aeromoça, e lhe faz o pedido de comida. Recebe como resposta que “refeições não são servidas nesse setor”.
 

“What the fuck?”, exalta Belfort ao público brasileiro, para continuar com sua história. Ele acha estranho estar na primeira-classe e não ser servido. Acha ainda mais curioso o fato de que, pouco depois, a aeromoça passa pelo corredor com comida, mas encaminha-se à ala econômica. Ele volta-se à funcionária e a indaga pelo motivo não poder comprar os lanches servidos às outras pessoas. Escuta que “essas são as regras”.
 

Então, Belfort fecha sua parábola. Ele aborda outra atendente, que rapidamente acata seu pedido e traz, “por conta da casa”, um lanche ao Lobo de Wall Street. A primeira aeromoça, ele diz ao público, é um “pato”, também apresentada como uma “pessoa razão”; já a outra, é uma “águia”, a “pessoa resultado”, aquela que, de acordo com a linguagem simples e direta do palestrante, “get shit done” - traduzido facilmente por "faça acontecer, a qualquer custo".

A história de Belfort traz uma moral variável, de interpretações que diferem de pessoa para pessoa. Para o público de 2 mil pessoas, O Lobo de Wall Street parece estar em um panteão de gênios dos negócios. Ser um 'águia' é o que importa. Mas há ironia no ar, junto ao sentimento de júbilo do fim da noite: em inglês, águia (eagle) e ego soam extremamente semelhantes. A dificuldade não está só em distinguir os sons, mas em reconhecer o limite de cada um. O céu, talvez?


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